quarta-feira, 13 de julho de 2011

Não Aceitamos Devolução


Entrei na loja com a caixa em mãos e logo um vendedor jovem e risonho veio me atender todo prestativo.
- Boa tarde, no que posso ajudá-la?
- Boa tarde, eu gostaria de devolver um produto.
O vendedor me olhou pesaroso
- Defeito de mercadoria?
- Sim – respondi prontamente
- Hum, acho que posso resolver. Qual é o produto?
- Este aqui – falei abrindo a tampa da caixa e mostrando para o vendedor.
Logo que viu o conteúdo da caixa ele fez cara de preocupado.
- Não sei não Sra.
- “Você”, por favor, não sou tão velha ou casada, também não gosto de formalidades assim.
- Claro. Como ia dizendo, não aceitamos devolução de tal produto.
- Mas ele veio com defeito, aliás, este sequer foi o que pedi.
O vendedor suspirou desanimado, parece que já havia passado por isso outras vezes e, por sua expressão, não tinha experiências agradáveis quanto a isso.
- Bom, me acompanhe até o balcão e verei o que posso fazer.
Ele pegou a caixa de minhas mãos e o acompanhei, lhe entreguei também a nota fiscal. Depois de conferir tudo se virou para mim.
- Mas… você está há meses com o produto.
- Acontece que vocês mandaram o produto errado.
- Pois deveria ter vindo antes.
- Mas esse é muito parecido com o que eu pedi.
Já ficando irritado ele se virou novamente para o computador.
- Espera, você já fez uma troca aqui.
- Deixe-me explicar. Esse primeiro produto no sistema foi um presente, mas eu não gostei e perguntei se poderia trocar…
- Espera – me interrompeu ele – Você perguntou para a pessoa se poderia trocar um presente?
- Eu não tinha utilidade pra isso e não sou boa em fingir que gostei de algo que não gostei.
- Que cara de pau
- Ei, tanta informalidade também não, faça-me o favor, ainda sou uma cliente – falei indignada
- Desculpe
- Continuando, a pessoa, muito compreensiva, não viu problemas na troca, mas quando vim trocá-lo o que eu queria estava em falta e custava mais, então paguei a diferença e ficaram de entregar em casa. Mas, quando chegou, não percebi a troca, era muito parecido com a minha escolha.
O rapaz suspirou novamente, me olhou preocupado e disse:
- Não posso ajudar.
- Mas, está cheio de defeitos. – falei começando a me sentir estressada – Quero falar com o gerente, eu exijo ser ressarcida.
Ele saiu rapidamente e subiu as escadas no fundo da loja, eu nem sequer olhei para o lugar, conhecia bem esse tipinho de loja, às vistas tudo parece perfeito, útil e encantador, aff, mera ilusão, é só chegar em casa e usar que começa a te trazer prejuízos, sem contar o estresse e os danos para a saúde.
Logo o vendedor voltou acompanhado de um homem baixinho que aparentava seus quarenta anos, este, percebi, já vinha preparado para a possível complicação que teria pela frente.
- Boa tarde, no que posso ajudá-la.
- Quero devolver um produto – repeti a frase pela segunda vez no dia
- E qual seria?
- Amor.
- Nós não aceitamos devolução de tal produto
“Isso o vendedor já disse, se fosse pra ouvir a mesma coisa não o teria chamado.” Pensei
- Vou explicar novamente. Há anos eu ganhei um presente do qual não gostei.
- Hum, sim – resmungou o gerente – Ódio, certo?
- Exatamente - Realmente, é um presente estranho para se dar.
- É, por isso vim até aqui trocar, mas o produto que escolhi não foi amor. Quero que meu problema seja resolvido, não ficarei com um produto que não pedi. Quero o preço que paguei de volta.
- E quanto foi? Entenda, os preços variam de acordo com o tipo de amor.
- Muitos sorrisos, meus melhores dias, carinho, afeto e confiança. Perceba que foi caro demais. Também quero devolver os prejuízos.
- E quais foram seus prejuízos?
- Lágrimas, noites mal dormidas, decepção e muita mágoa. Cheguei a me sentir esgotada fisicamente. Se não pode devolver o que paguei então faça uma nova troca.
- Veja bem, você está com o produto há meses, a embalagem já foi aberta, ninguém mais aceitará comprá-lo, mesmo depois de concertado nunca voltará a sua perfeição inicial.
- Isso é um absurdo, vocês enviaram errado, não sou obrigada a ficar com isso.
- Enviamos errado? – disse o gerente – Impossível.
- Impossível nada, eu paguei a diferença pra trocar o ódio pela amizade.
- Espere, já sei o que pode ter acontecido – falou o homem abrindo uma gaveta – Veja bem isso – peguei o contrato o qual eu assinara. Nele constavam todos os benefícios do produto que eu escolhera: Compreensão, companheirismo, carinho, alegria, sorrisos, dedicação e uma lista imensa de muitos outros beneficio.
- Sim, foi este produto que escolhi. – respondi com segurança
- Esse é um erro muito comum aqui, existem muitos contratos e neles há muitos termos. Este não é o contrato da amizade, você, provavelmente, os trocou na hora da compra, os dois são muito parecidos. Também imagino que não o leu por inteiro – senti meu rosto ruborizar, sim, é verdade, não li o contrato inteiro, eram termos e palavras demais, li apenas as vantagens e, pensando bem, nem mesmo essas li palavra a palavra, pois não lembro de ter lido a palavra paixão que agora vejo que está aqui presente – É normal, ninguém lê, geralmente ficam cegos pelos benefícios oferecidos e não vêem as benditas letras pequenas.
Procurei as tais letras, estavam na última página, lá embaixo.
Aviso: Apesar dos dias de paz o amor também poderá lhe trazer dias de grandes guerras e tempestades, haverá o perdão, porém, também será necessário que o consumidor dê o seu perdão, não há contra indicações, mas, em caso de doença ou alergia causada por tal produto, não há remédio. O amor também pode causar insônia, lágrimas e dores de cabeça (em alguns casos os sintomas ocorrem juntos), caso isso ocorra é possível que o próprio produto gere antibióticos para a cura.
Em caso de problemas ou defeitos não aceitamos devolução.
Fiquei olhando pasma para o maldito contrato, então era isso? Eu estava presa para sempre a um produto cheio de defeitos porque não li as letras pequenas? Eu estava presa ao amor?
- Sinto muito – disse o gerente
- Ta – foi tudo o que consegui dizer ao pegar minha caixa com o amor e virei as costas.
Quando estava chegando à porta ouvi a voz do vendedor, me virei e o encontrei logo atrás de mim.
- Espere, eu… queria saber uma coisa. – apenas afirmei com a cabeça dando a entender que podia continuar – Se o amor tem lhe causado tantos problemas, porque resolveu tentar devolver só agora? Por que não veio assim que percebeu que não era a amizade?
- No começo não desconfiei de nada, o produto cumpria tudo o que dizia no contrato, porém, depois de algum tempo percebi que tinha coisas a mais, benefícios a mais… Paixão, carinhos acompanhados de desejos… e depois os beijos – sorri ao chegar ai – ah, os beijos, perfeitos, sem contar as noites que depois não eram necessariamente só noites – vi um sorriso malicioso no rapaz e percebi que tais vantagens podiam ser deixadas de fora, não queria sua mente vagando além da conta, principalmente perto de mim – enfim, era muito melhor do que eu pensara, mas depois disso vieram as decepções com esse tal de amor, muita lágrima, muita tristeza, tentei deixar meu amor no guarda roupas ao sair de casa, mas, de alguma forma, ele tinha sempre que me acompanhar, tentei jogar pela janela, mas ele é resistente… – pensei sobre a questão da janela – bom, ou talvez eu devesse ter subido em um prédio pra fazer isso já que moro em uma casa, provavelmente nem meu cachorro sofreria algum dano caindo da janela do meu quarto. A questão é: O amor, como muitos outros produtos enganosos, parece tudo o que você queria no começo, depois você precisa correr atrás de um técnico que não te cobre os olhos da cara pra arrumar, ai está outro problema, você descobre que apenas um técnico consegue arrumar perfeitamente o teu amor e, provavelmente, ele é o que te cobra mais caro pra consertar, e não se tem noção de quando ele pode vir a dar problemas de novo. No meu caso às vezes demora, às vezes não, questão de semanas ou meses.
- Talvez devesse deixá-lo quebrado, quer dizer, ele vai voltar a quebrar, não é?! Não vale a pena mandar concertar.
Refleti sobre o que ele acabara de falar.
O toque da mensagem do meu celular tocou. Ali estava a resposta para aquela dúvida.
“Me desculpe, eu te amo”
Olhei para o vendedor com um sorriso incerto e o respondi:
- O amor não tem devolução. Já que tenho que carregá-lo para o resto da vida quero aproveitar os momentos em que ele está inteiro, acho que é a única forma de ser ressarcida.

Texto por Jéssica de Paula

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