quinta-feira, 30 de julho de 2015

Não, não e não!


Eu não vou para escola nenhuma. Não vou. Não mesmo.
Minha mamãe me colocou a força dentro do carro, mas fugi três vezes e me escondi na dispensa da cozinha enquanto ouço ela gritando pela casa. Não me interessa se ela diz que vai ser legal. Não vai. Não e não.
Ninguém perguntou se era isso que eu queria. Adultos não levam em consideração o que uma criança quer, eles só querem saber deles e de mais ninguém. São mandões e egoístas e nós, crianças pequenas, temos só que obedecer, mas eu não. Se não quero, não faço. Deve ter alguma lei que proíba obrigar uma criança de ir para a escola contra sua vontade.
"Alice, eu não estou brincando." grita mamãe de algum lugar da casa. E quem disse que eu estou?
Quando a porta se abre e mamãe me puxa para fora começo a gritar e pular, tento correr, mas ela me agarra e me carrega aos berros para o carro novamente, dessa vez ela é mais rápida e consegue me prender na cadeirinha e trancar a porta antes que eu corra.
Continuo gritando enquanto o carro está em movimento e todos lá fora me olham quando o carro para em algum sinaleiro, mas eu não ligo. Cuidem das suas vidas, sou só uma criança, tenho direito de tentar me impor. Pelo menos acho que tenho algum direito assim.
Quando chegamos na tal escola, penso que só tem um jeito de não entrar: me segurando com todas as forças na porta do carro e não largar por mais que mamãe me puxe. Não entendo porque tem tanta gente olhando, tem uma menina jogada no chão da entrada aos berros e um menino sendo puxado pelos pés de dentro de uma van, não sou só eu e se tem tanta criança com medo, boa coisa essa escola não é.
"Vamos, Alice. Você vai gostar. Terão amiguinhos novos." Os velhos já está bom, obrigada, de nada.
"Vai aprender a escrever com uma professora muito boazinha." Não, não e não, mamãe. E o que eu quero? Não sou só uma criança, sou um ser humano que merece respeito. Eu vi isso num filme, mas não sei direito o que é respeito, mas parece bom.
Me desespero quando ela consegue me soltar da porta e começo a me espernear junto com outras crianças muito espertas que sabem os perigos da escola.
Uma sala, socorro, socorro, socorro, preciso de ajuda, alguém me salve.
A mamãe me coloca no chão e tenta falar comigo, mas não paro de gritar e chorar.
"Nãããão." uma menina de cabelo loiro do meu lado consegue gritar mais alto que eu e, no susto, eu paro de chorar para olhar para ela. Mamãe aproveita para me levar até a sala. Ela fala com uma moça com uma roupa bem colorida e cheia de desenhos de bichinhos que me chama a atenção. A moça se abaixa e sorri um sorriso muito bonito para mim e me sinto melhor agora.
"Então você é a Alice?" digo que sim bem baixinho, ainda estou com medo dessa sala estranha. "Alice, eu sou a tia Clara, tudo bem?". Aceito sua mão e vou com ela até uma mesinha amarela que fica junto com outras mesinhas coloridas. Sento numa cadeira pequena para o meu tamanho e olho insegura em volta. Tem uma menina de cabelos bem enrolados e grandes na minha frente, ela tem cor igual de chocolate e falo isso para ela que sorri e diz que meu rosto parece de urso porque é muito redondo e eu também acho isso engraçado porque eu gosto de chocolate e ela de urso então acho que gosto dela e ela de mim.
Olho para a porta e mamãe sorri também e me dá tchau. Fico com um pouco de medo, mas dou tchau para ela também.
A menina que estava chorando do meu lado lá fora senta do meu lado "Não precisa chorar," eu falo com a mão no seu ombro "depois nossas mamães vem buscar a gente." ela sorri também.
Acho que a escola não é tão ruim assim.

Um comentário:

  1. Oi, moça! :)

    Ai, que saudade desses textos! Desde a primeira vez que o li, no Natal, fiquei encantada! A Alice é uma amor <3 Acho legal dar voz às crianças, mesmo que, internamente, elas pensem como adultas. A minha Amélia é exatamente assim. Mas a Alice conseguiu, nesse texto, oscilar muito bem entre ser criança e ser adulta. Achei tão fofinho! *-*
    O melhor quote é, com certeza, esse: "Não sou só uma criança, sou um ser humano que merece respeito. Eu vi isso num filme, mas não sei direito o que é respeito, mas parece bom". Gracinha demais, hahaha.
    Quero mais vezes essa fofenta aqui, tá? <3

    Love, Nina.
    http://ninaeuma.blogspot.com/

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