sábado, 24 de agosto de 2013

Suspeitos


Eram 40 suspeitos. 40 diferentes pessoas com diferentes relatos. 40 vidas unidas por um trágico fato, mais que isso, unidas por uma mentira. Mentira esta contada de 40 formas diferentes. 39 inocentes, 1 culpado. Ou seriam mais? Não sabia dizer, mas era fato que existiam culpados e também cúmplices. Não tinha certeza se havia, naquele meio, um único inocente além da própria vítima.
Chamei um por um até minha sala, questionei a todos individualmente. Alguém seria dedo duro suficiente para entregar o culpado.
- Maria. - chamei pela última suspeita.
Estava naquilo há dias, o tempo era curto. Estava perto do dia para o qual a reunião fora marcada. Logo o culpado teria que se resolver com seu juiz, ou melhor, juíza.
Ao entrar Maria direcionou os olhos para a foto da vítima e, em seguida, para os próprios pés.
- Sente-se, Maria. - pedi delicadamente..
Seu olhar permanecia baixo então chamei por seu nome uma terceira vez. - Maria - Finalmente seus olhos cor de mel encontraram com os meus. - Sabe que não precisa ter medo de contar a verdade. Sempre foi uma boa garota, essa é uma grande oportunidade para me ajudar. - instiguei-a.
- Não quero ser dedo duro. - disse tristonha.
Por um segundo realmente senti pena de Maria. Apenas um segundo. Aquilo era necessário independente de pena.
- Lembra do dia em que ele chegou?! - a pergunta era retórica, não tinha como esquecer - Todos foram para fora, teve um piquenique e no fim da tarde tiraram esta foto. - mostro a foto com todos juntos. Os 40 cúmplices e a vítima, ainda no começo de sua vida, sem sequer imaginar seu fim. - Se contar a verdade pode ficar com a foto.
Ela leva alguns minutos para pensar na proposta. Seus olhos passeiam entre mim e a foto. Finalmente sua pequena mão timidamente atravessa a mesa em direção à foto levando-a para perto de si. Ao olhá-la de perto suspira e, quando menos espero, começa seu relato.
- Foi um acidente - justifica-se - Ninguém queria assustar o Heitor, mas quando o Júlio abriu a porta ele correu. - seu tom de som baixou - Quando tentei fechar a porta ele passou correndo por mim e foi em direção ao parquinho. Fomos atrás, mas estava cheio e o perdemos de vista. Nos separamos em grupos e procuramos por Heitor em vários lugares. Eu, o Paulo e a Cíntia estávamos na lanchonete quase desistindo quando ouvimos um grito vindo de dentro do prédio. Fomos para lá e, quando chegamos no corredor, ouvimos outro grito. Esse último era da Joana. Encontramos quase todo mundo no armário de produtos de limpeza, a tia Rita estava com uma vassoura na mão e o Heitor morto no chão. - Maria deu uma pausa relembrando os demais fatos. - Ela pediu desculpa, mas ficamos com medo que você ficasse brava por abrirmos a gaiola e termos perdido o hamster então o Pedro pegou o corpo dele e levamos de volta para a gaiola. Quando chegou fingimos que não tínhamos visto o Heitor morto.
Após o relato só posso dizer que fiquei aliviada por não ter um assassino de animais na minha turma da 5ª série. Fiquei chateada por esconderem o ocorrido, mas ainda não era tão ruim quanto saber que um deles matara Heitor e não precisaria delatar ninguém na reunião de pais e mestres.
- Obrigada, Maria. - agradeço finalizando o interrogatório.
- O Heitor foi o melhor mascote que tivemos. - afirma aliviada e se retira deixando-me novamente sozinha.

texto por Jéssica de Paula

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