quinta-feira, 14 de julho de 2011

Imperfeita

Ela tem aquele olhar contido, parece vazio, mas eu a conheço, sei que se esconde por medo de confiar, talvez seja esse o motivo daquele olhar, o sorriso quase não vejo, sei que ela sorri muito, mas nesses momentos nunca paro pra reparar no sorriso que todos acham tão bonito, o vi poucas vezes e mesmo nestas não reparei muito na dita beleza do sorriso. Já nas gargalhadas é difícil não reparar, tão escandalosa, não sabe se conter em público, mas eu, particulamente, gosto das gargalhadas apesar de todos afirmarem ter vergonha de ter estranhos olhando para quem estiver com ela. E o choro, bom, ela chora tanto quanto ri, talvez mais, ela tem o costume de sempre chorar em meio a uma briga, não por tristeza, mas por raiva, ah sim, ela chora muito quando sente raiva. Suas roupas estão sempre de acordo com seu humor, ela não é do tipo que segue moda, na verdade mal entende do assunto, da última vez que a vi estava com a roupa que encontrara em cima da cadeira do quarto, os cabelos ao natural, com mais volume, sonolenta, a pele nada boa como sempre, raros são os dias que sua pele me agrada. Comecei a procurar por todos os seus defeitos, ela nem de longe tem a beleza que me agradaria de verdade, mas talvez ela nunca conseguiria me agradar independente de como fosse, eu continuaria procurando todos os seus defeitos e os aumentaria mil vezes. Olhei novamente para seus olhos, continuavam vazios, mas alguma coisa me agradou ali, as pessoas costumam dizer que ela tem rosto de garotinha, não de mulher como eu sempre quis, mas não é só seu rosto, seu olhar, seu choro, suas gargalhadas, eu não a conheço perfeitamente, mas com certeza ela nunca cresceu da forma como deveria, ela nunca teve coragem de se abandonar como criança, ela tem todos esses problemas em se deixar para trás, ela tem esses mil defeitos de infância e vem acumulando sempre mais, mas eu nunca paro pra reparar nas suas qualidades que chegam com o passar dos dias… Acho que sempre fui dura demais com ela, de repente, enquanto a olhava, percebi que alguma coisa realmente me agradava naquela garota, aquela garota imperfeita que me olhava através daquele espelho, alguma coisa realmente me agradava no meu reflexo, eu percebi que não importa quantas vezes eu reclamei de mim, quantas vezes eu fui estúpida, quantas espinhas me deixaram louca, quantas pessoas ruins eu confiara, nada de ruim importa, porque eu levantei de todas as quedas, eu chorei, mas nunca deixei de sorrir, eu me neguei, eu me aceitei, eu me odiei, mas eu me amei, eu quis me abandonar, mas vi que era impossível então decidi ser apenas eu, com todos os meus defeitos, mas também com todas as minhas qualidades, eu ainda tenho muitas coisas ruins pra passar, mas tenho fé que muitas coisas boas também virão e nesse momento tenho certeza que não gostaria de ver nenhum outro reflexo no espelho que não seja dessa garota que vejo agora, não quero ser ninguém além dela.

Texto de Jéssica de Paula

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